Hugo Leal na primeira pessoa.




Aos 27 anos, Hugo Leal ainda sonha com tudo. Até com o regresso à Selecção Nacional. O menino precoce que chegou à primeira equipa do Benfica com 16 anos só pede que, em Belém, as lesões o deixem em paz.

Por sua vontade própria, decidiu, na última época, parar repentinamente. Abdicou mesmo de grande parte da temporada. Não é normal...

Hugo Leal - O que eu sei é que acabei de fazer 27 anos e, às vezes, é preciso dar um passo atrás para de seguida dar dois em frente. Foi o que se passou neste caso, com essa paragem de seis meses. Aprendi a valorizar de novo o futebol e consegui recuperar totalmente no aspecto físico. Quando parei tinha um défice muito grande na musculatura de uma perna. Havia mesmo uma grande diferença para a outra e até um problema entre as partes anterior e posterior das duas pernas. Falaram-se que estava descompensado muscularmente. E o que fiz foi parar para recuperar totalmente. Fui eu que o quis, fui eu que decidi. Era a única hipótese de no futuro não vir a sofrer mais lesões. O que não quis foi ficar no braga mais dois ou três meses parado e a ouvir aquelas perguntas inevitáveis: "Então quando é que jogas? Quando é que estás bom?". Por isso a minha decisão.

A recuperação ficou, então, por sua conta.

Hugo Leal - Claro. Tenho pago tudo, tenho eu procurado os médicos que entendo serem os melhores, tenho ido às consultas que entendo. Tudo por minha conta, claro.

E como é que se sente hoje?

Hugo Leal - Estou apenas a treinar-me, sem competir, e só quando chegarmos a outro nível de exigência é que poderei perceber como estou. Pelo menos desapareceram as dores lombares e musculares, que era o que me acontecia muito em braga.

Às passa a ideia que falta aí paixão pelo jogo?

Hugo Leal - Eu tenho muita paixão pelo futebol, mas à minha maneira e não talvez como a maioria das pessoas. Saí do FC Porto para ir para a académica quando ninguém o esperava. Para mim, era muito mais cómodo ficar no FC Porto, jogando mais ou menos. Ou até nem jogando. Mas como tenho realmente paixão pelo futebol preferi sair para poder jogar.

O que é que o seduziu neste convite do Belenenses?

Hugo Leal - Várias coisas. Esta proposta não era a melhor desportiva nem economicamente, mas a verdade é que, analisando de forma global, considerei que era a mais interessante. Tive convites de vários clubes, alguns dos quais que até vão disputar a Liga dos Campeões, da Grécia e da Croácia. Mas preferi o Belenenses e sei que não me arrependerei.

A possibilidade de voltar a Lisboa pesou na escolha?

Hugo Leal - Por acaso, não. Eu optei foi por escolher o clube onde acredito que posso voltar a ser feliz. Pelo menos, nesse pressusposto. Ponderei algumas possibilidades de ir para o estrangeiro - curiosamente para nenhum dos países que já referi - mas as propostas não foram suficientemente apelativas. O Belenenses, sim, agradou-me.

Depois de tudo isto, ainda está a tempo de voltar a representar Portugal? Curiosamente, até foi em Paris que se estreou pela selecção A...

Hugo Leal - Pois, é verdade. Voltar á selecção? Até no ano passado em braga sonhava com a selecção. Eu queria muito voltar à selecção. Mas estes últimos seis meses obrigaram-me a pensar de maneira diferente. Estava com projectos gigantescos em braga, tinha condições para voltar a chegar longe e as coisas não aconteceram como eu pensei que pudessem acontecer, sobretudo por causa das lesões.

Já dá para fazer um primeiro balanço sobre a realidade que encontrou no Belenenses?

Hugo Leal - Estou encantado e nada surpreendido. Era exactamente o que eu estava à espera de encontrar. Em relação ao treinador (Jorge Jesus) as coisas têm sido mesmo como me diziam. Parece-me exigente e trabalha muito bem física e tacticamente. E, nesta altura, eu preciso mesmo de alguém que puxe por mim, porque estou há muito tempo sem jogar. O plantel, pelo que fez no ano passado e pelo que já pude ver nesta pré-temporada, é óptimo.

Com várias opcões de qualidade para a sua posição...

Hugo Leal - Sem dúvida. Conto com todos eles para me ajudarem. E quero até aprender com eles, porque ninguém sabe tudo. E devo ainda dizer que encontrei uma organização neste clube que não fica nada a dever aos grandes.

Disse que espera contar com a ajuda do grupo. E, ao contrário, de que forma pode o Hugo Leal ajudar o grupo? O que pode, no fundo, acrescentar à equipa?

Hugo Leal - Espero dar muitas alegrias. Bom, não marco um golo há três anos... Estou a contar quebrar este jejum aqui em Belém. Se estiver bem preparado, e vou estar, farei aquilo que sei: defender e atacar em doses iguais e até fazer bastantes assistências para golo. O que quero mesmo é estar a um bom nível físico para adequar aos interesses do conjunto o que melhor poderei fazer, que é sobretudo ter responsabilidades na circulação e posse de bola.

O facto de não encontrar no Belenenses uma pressão por aí além, pelo menos quando comparada com outros clubes por onde passou, acaba por ser bom...

Hugo Leal - Bom, eu não sei se não vai haver essa pressão. Mas se não houver, admito que, nesta altura, isso possa jogar a meu favor, sim. Sobretudo porque preciso de algum tempo para alcançar os meus melhores níveis físicos e técnicos.

Mas sente problemas quando há pressão?

Hugo Leal - Não, não. Nada disso. Acho que todas as pessoas devem ser semnpre mais exigentes, devem sempre querer mais. Eu, pelo menos, sou assim e defendo isso. Vou mesmo esperar que exijam o máximo de mim no Belenenses. É uma forma, até, de um jogador nunca relaxar.

Uma boa época poderia ser chegar até onde?

Hugo Leal - Uma boa época seria não ter qualquer lesão. Isso já seria óptimo. Quero muito estar ao nível que eu me reconheço. Fiz jogos muito bons em braga e, certamente por coincidência, comigo a equipa ganhou sempre. É isso que vou querer de novo, mas agora em Belém - onde exijo estar a 100 por cento. Voltar a lesionar-me seria muito frustante.

Da edição impressa do Record.