Ecos do Restelo Especial: Estágio 2007 - Dossier Avançados.



Por incrivel que pareça, um só ano passou desde o início do estágio belenense que marcou o arranque da época 2006/07.
Caso Mateus à parte, quem se deslocou a Sintra no ano passado certamente se terá questionado acerca do poderio ofensivo dos azuis do Restelo.

Recuando um ano atrás no tempo, podemos observar no rectângulo do Sintrense a presença de um jogador alto oriundo do Estoril havia seis meses; um brasileiro cuja veia goleadora dos tempos do Moreirense se extinguira há muito; um português dos Açores, dos quadros do clube, mas que fora emprestado ao secundarizado Varzim; um pequeno jogador desconhecido que se assemelhava fisicamente ao famoso Romário...

De facto, Dady pouco jogara em 2005/06 e não marcara qualquer golo; Manoel era uma pálida imagem do craque que o sporting outrora contratara; Eliseu vira-se a braços com um penoso caso de doping; Roma nem sequer era um "verdadeiro" avançado mas as circunstâncias obrigaram que actuasse nesses terrenos.

E era tudo. Um autêntico deserto ofensivo no último terço do terreno que surgia depois de um meio-campo verdejante e luxurioso.
A (fraca) expectativa geral - não obstante o golo e a exibição de Roma frente ao Setúbal - pareceu confirmar-se no primeiro terço da Liga: volvidas 11 jornadas, o Belenenses tinha somente 7 golos apontados, cifra que significava o segundo pior ataque de toda a liga.

O resto é História: o furação Dady varreu impiedosamente as defesas adversárias, acabando mesmo por se posicionar enquanto vice-rei dos goleadores da liga.

Avancemos um ano em relação ao início destas palavras e aterremos a nossa máquina do tempo em Sintra, mais precisamente no estádio do Sintrense. Encontramo-nos em meados de Julho. Observamos Dady, que tão bem conhecemos; ao seu lado, em direcção à baliza, corre um campeão do mundo e internacional brasileiro, de seu nome Roncatto, Evandro Roncatto; um pouco mais à esquerda, procurando a bola, evolui João Paulo Oliveira, outro brasileiro rotulado de goleador; um pouco mais descaído sobre as alas, mais rápido do que vento, avança Mendonça, potente, internacional angolano; mas quem temos ali, "aquele ainda não conhecemos", pergunta alguém, para imediatamente outrém responder: "é o Nicolas Muñuz", internacional panamiano que marca que se farta, acrescentamos nós.

Principais características deste quinteto ofensivo:

Dady:
Todos conhecemos o cabo-verdiano de Lisboa. 25 anos, forte porte atlético (1,91m), rápido, técnica assinalável para um jogador com a sua altura e caracteristicas. Vale (provou-o na época transacta) mais de 10 golos/Liga. Adapta-se perfeitamente ao esquema táctico 4x4x2, sendo importante para o seu futebol ter outro avançado centro móvel perto si - como o foi Garcés... Tem mais dificulades em 4x3x3, até mesmo porque o futebol pelas alas (menos directo) atenua a sua velocidade e acentua o seu mau jogo de cabeça. Facturou 12 golos em 28 jogos, uma média de 0,43 golos/jogo.

Evandro Roncatto:
Chegou, viu e marcou. O internacional jovem brasileiro que brilhou no mundial sub-17 de Espanha factura invariavelmente nos treinos, e não deixou de facturar no primeiro jogo da pré-época. Tem apenas 21 anos, medindo 1,82m. Depois de ter brilhado e facturado muitos golos no Guarani, teve passagens menos felizes pelo Naútico e sobretudo pelo Ipatinga. Não se trata de um avançado que procure o choque, distinguindo-se pela sua classe, técnica acima da média e poder de fogo quando se trata de alvejar a baliza. Parece poder enquadrar-se muito bem num esquema 4x4x2, ocupando, ao lado de Dady, a posição de segundo ponta de lança.

João Paulo Oliveira:
Outro brasileiro jovem (22 anos) e alto (1,84m). Não apresenta um curriculo tão impressionante como o seu compatriota, mas facturou mais no último campeonato brasileiro estadual: 9 golos em 16 jogos. Trata-se de um jogador mais fisico e possante, menos móvel que os restantes companheiros do ataque azul. Possui um forte remate, e apresenta-se como uma mais valia para a luta da grande área. As suas características adaptam-se principalmente ao esquema táctico 4x3x3. Dificilmente poderá actuar ao lado de Dady enquanto segundo ponta de lança.

Mendonça:
O internacional angolano de 24 anos subiu a pulso no mundo do futebol. Oriundo do Varzim, tem no Belenenses a sua primeira grande oportunidade de brilhar no principal escalão do futebol português. O seu 1,73m não engana: não sendo alto, é possante e extremamente rápido, rapidez essa na qual se apoia todo o seu futebol. Actua preferencialmente nas alas, sendo sobretudo um servidor, ou seja, não marca muitos golos (4 ao serviço do Varzim na última temporada). Poderá actuar num esquema de 4x3x3, ou em 4x4x2 fora de casa, caso Jesus pretenda privilegiar o contra-ataque.

Nicolas Muñuz:
O quatro internacional do ataque azul, desta vez pelo Panamá. Trata-se de um ponta de lança de 25 anos que assenta o seu jogo na velocidade, mobilidade e oportunidade. Não é muito alto nem possante (1,77m e 72 quilos), não se esperando dele combate fisico com os defesas centrais adversários. É sem dúvida um goleador (mais de 20 golos em 2004-05). Oriundo de um campeonato pouco conceituado (El Salvador), trata-se ainda de uma grande incógnita. Actuará preferencialmente pelas alas devido à forte concorrência ao centro. Tal como Mendonça poderá também actuar em 4x4x2 fora de casa, quando as circunstâncias assim o exijirem.

Conclusão: Jorge Jesus tem ao seu dispor um leque de avançados (nos quais ainda se pode incluir Fernando) muito diversificado quer em termos qualitativos, quer em termos quantitativos. Uma dor de cabeça positiva sempre que tiver de escalonar um 11. A tal diversidade acima citada, sugere que terá opções para todos os esquemas tácticos e para todas as circunstâncias de jogo.

O céu (azul) é o limite...