Diário de um Ultra: Um sábado azul na vida de um Furioso.




Véspera de jogo do Belenenses... o meu sono reconciliador de uma semana cansativa foi invadido por imagens estilizadas de bandeiras e cachecóis azuis, erguidos orgulhosamente tão alto, que pareciam ir tocar no céu. Ao fundo, recortado sob um fundo azul que ia serenamente de encontro ao mar, o Mosteiro dos Jeróminos encontrava-se solenemente erguido nas brumas da memória...

Não sei se do espaço celeste cantavam, embriagados pelos vapores das delícias dionisíacas, milhares de deuses da mitologia grega e romana, mas os meus ouvidos foram trespassados por uma onda sonora decibélica de proporções épicas.
Eu, trajando de azul com uma cruz ao peito que cruzou, nas velas de uma caravela, os sete marés da aventura, enchi de ar os pulmões e soltei uma descarga sonora que trovejou no infinito como o demíurgo big band fundador: BELÉMMMM...

Inesperadamente, confuso, acordei e abri os olhos sem saber exactamente onde me encontrava: a minha namorada, deitada ao meu lado, sorrindo dizia, quase para si própria: O Belenenses joga hoje...
Eu, olhei para ela e, também esboçando um sorriso, simplesmente encolhi os ombros.

Efectivamente, às 19 horas, o grande Belenenses defrontava a União de Leiria, naquela que seria a estreia dos azuis, na superliga 2005-2006, no Restelo.
Pouco depois, cerca das 9 da manhã, não obstante ser fim-de-semana, já estava de pé: não conseguia voltar a adomecer!
Higiéne pessoal já assegurada, camisola azul vestida e pequeno snack preparado para fortalecer o corpo para as emoções do dia, despedi-me de minha namorada e, ainda não eram 10 horas, já me encontrava a caminho da casa de todos os Belenenses: o Restelo.

Da Ajuda o percurso é curto, a vontade de chegar grande!
Dobrei a última esquina, e lá estava: um monumento imponente e ao mesmo gracioso, palco de todas as emoções, o local do mundo onde a família azul melhor se sente!
Depois de me cruzar com o mítico Pepe, lá cheguei.
A sede da Fúria Azul encontrava-se ainda deserta, mas certamente no decorrer do dia iria encher-se de alegria e entusiasmo.

Deixando a poesia para os poetas que à beira rio sonhavam com musas inspiradoras, coloquei as mãos à obra, ou se quiserem à faixa.
Ainda que 3 semanas separassem aquela manhã, do encontro da quarta jornada no qual o Belém defrontará o Vitória de Guimarães no Restelo, a nova faixa principal da Fúria Azul, a ser estreada precisamente contra os minhotos, dará muito trabalho.

E lá estive eu, mentalmente fazendo a contagem decrescente até ao início do jogo, e fisicamente desenhando uma a uma, com a ajuda de um retro-projector, as nove letras mágicas com que se escreve amor e dedicação ao Belenenses.
Rapidamente a hora de almoço chegou e, já acompanhado por alguns furiosos, lá se matou a pouca fome num piscar de olhos, porque, às 15 horas, a nossa equipa de andebol apresentava-se frente ao Benfica, e o trabalho ainda era muito.

Já no pavilhão, meia dúzia de furiosos aplaudiam a nosso 7, enquando outros, incansáveis, corriam até a um centro de cópias: era necessário fotocopiar o cartaz que anunciava que a Fúria, a partir daquele jogo, instalava-se de armas e bagagens na superior norte do Restelo.
Entretanto, já com os cartazes colados e com os vermelhos humilhados pela superioridade azul, outros furiosos chegavam, sendo necessário dobrar os azulões e iniciar a sua venda no campo nº 2, onde os júniores do Belém defrontavam o Sporting.

Cinco da tarde: os ponteiros do relógio, sem pressa, impassíveis, continuavam a circum-navegar na impaciência azul, enquanto o coração, batendo mais aceleradamente, pressentia já que a hora do jogo se aproximava.
Mais furiosos entretanto faziam a sua aparição, sendo necessário montar a banca da Fúria, expor o mais recente cachecol do grupo, vender a quota da nova época e, nas bancadas, colocar as faixas e bandeiras para saudar os nossos jogadores.

Finalmente, aconteceu: os 11 cruzados azuis, na sua segunda partida rumo à terra santa do futebol europeu, entravam em campo acompanhados pelo som do hino do Belenenses.
Sempre é verdade, HOJE COMO ANTIGAMENTE NADA TEMOS QUE TEMER!!!





Na bancada, o sonho tornou-se realidade: os cachecóis, estandartes e bandeiras azuis ergueram-se e pintaram o céu com a cor mais bonita do mundo.
A emoção e a paixão clubística que emanou das hostes furiosas foram tão intensas e entusiásticas, que quase se podia tocar nelas com a mão.

E não mais parou. As gargantas furiosas, desafiando as cordas vocais e a rouquidão, cantaram como se o estivessem a fazer pela última vez; as peles dos tambores, resistindo aos maus tratos, rufavam vibrando na sua tentativa de acompanhar a banda-sonora azul, inspiradora de golos e de vitórias; as bandeiras, desmentindo a gravidade, permaneciam descrevendo no ar círculos imaginários, parecendo valsar ao som da melodia que ecoava nos ancestrais palácios vienenses...

E ganhámos! Na verdade não poderia ter sido de outra forma! Já o sabia, mesmo antes de acordar!
Por três ocasiões a bola, enfeitiçada pelos cânticos vibrantes que envolviam o Restelo num campo de forças que subjugou os adversários, foi estrondosamente de encontro as malhas... e então, pareceu que o mundo ia acabar tão poderoso foi o trovão que rebentou em uníssono nas bancadas; a terra, por sua vez, vibrou, estremecida por um estádio em delírio...

O rectângulo de jogo estava sem vida; as luzes já se apagavam; as bancadas encontravam-se já desertas e só pequenos pedaços de papel, animados pelo vento, pareciam ter vida... olhando a minha volta senti, ainda com a vibração dominando o meu cérebro, que estava perante uma miragem: encontrava-me ainda no mesmo local? Disputara-se ali mesmo um jogo?
Mas ao fundo, com o infinito como cenário, o placard electrónico encontrava-se ainda com vida: letras vermelhas de néon, garrafais, indicavam CFB 3: UDL 1.

Afinal tinha sido real... ao meu lado estavam ainda alguns dos meus irmãos e irmãs, da família azul que somos todos nós, a enrolar as bandeiras e a retirar a faixa da Fúria...